Entrevista com Jaime Lerner – Parte I
Convidado para a abertura da exposição 25 Anos de Design Flexiv, o arquiteto e urbanista Jaime Lerner concedeu esta entrevista exclusiva para o Blog Inspire-se.
Acompanhe as ideias e conceitos deste profissional inovador:
- Como funciona o seu processo criativo? E quais semelhanças você apontaria entre o processo criativo de um urbanista e de um designer?
Jaime Lerner: É a mesma coisa. O processo é sempre o mesmo. Pra mim, inovar é começar. É não censurar as ideias que vêm. Na verdade se você está parado por falta de inspiração é porque a sua cabeça está pedindo: “feed me, feed me”, estão faltando dados. Porque criatividade é a arte de relacionar as coisas. Então, quanto mais dados se têm, mais você pode criar. Quanto mais dados você tem, mais criativo você pode ser. Quanto mais conhecimento. O nosso processo criativo é uma imersão. Eu, pelo menos, gosto de trabalhar em equipe, onde uma ideia bate na outra, volta aqui, vai de outro jeito e é assim que acontece o processo. E também eu nunca quis ter todas as respostas. Porque se você quer ter todas as respostas você tem medo de se arriscar, de criar. Então a gente não pode ser tão prepotente em querer ter todas as respostas. A gente tem que saber que o importante é propor e dar espaço para que outras pessoas possam te corrigir. Há um tempo atrás, numa discussão com os estudantes de Arquitetura, onde muitos estavam querendo desistir da Arquitetura, queriam ser sociólogos, economistas, DJ’s, chef de cuisine… eu disse para eles: “mas vocês não estão vendo que a nossa profissão é a mais bonita do mundo?” E a turma me olhou, “por quê?”. Porque com o desenho você faz antes. Todo trabalho criativo tem imersão. Você veja, uma mesa de cirurgiões é um processo de imersão. Espero que não seja no meu corpo, mas…(risos) Ou um escritório de arquitetura, uma redação de jornal, uma agência de publicidade, todas elas funcionam por um processo de imersão.
- O design de mobiliário de escritório e o design urbano têm pontos em comum, entre eles o pensar em como se pode viver & trabalhar melhor dentro de um ambiente (o escritório como pequeno mundo, e a cidade como mundo externo). É válido pensar no escritório como uma cidade, e em seus funcionários como cidadãos?
JL: É que o escritório não é tão democrático (risos). Alguns escritórios não são democráticos. Em geral, os escritórios das grandes corporações. Fora os escritórios de desenho, publicidade, esses são mais democráticos. Bem, o processo de criação é sempre o mesmo. Eu acho que as pessoas sempre pensam num móvel ideal, numa caneca ideal, sempre estão pensando num desenho que poderia ser melhor, ou melhor para as pessoas. Isso é um processo. A única coisa que eu tenho uma resistência é sobre objetos não ergonômicos. Porque é como se você fosse obrigado a botar a bunda numa só posição. A bunda é flexível. Então, todo móvel que quer te aprisionar em uma só posição por natureza, ele já não é bom. Me lembro das discussões que tinham sobre forma e função. Os arquitetos da função, como Mies van der Rohe e todos esses grandes nomes, na verdade quando eles desenharam móveis, eram mais forma do que função. Eu não consigo sentar numa cadeira Barcelona, é bom pra decorar, nem naquele sofá do Mies van der Rohe. E muito menos naquela chaise reclinável do Le Corbusier. Eu tenho os três e sento mesmo numa cadeira que foi desenhada pela Mobilinea. Ou numa Breuer, que é aquela clássica de 1922. Então, na verdade eu acho que o desenho do escritório tem que ser flexível.
- Você já afirmou em outras entrevistas que mudanças positivas elevam a autoestima do cidadão e que ninguém segura uma população motivada. Ainda pensando no escritório como uma pequena cidade, até que ponto isso é verdadeiro no ambiente corporativo?
JL: Pra mim, o local de trabalho tem que ter clima, um ambiente bom. Em todos os lugares que eu trabalhei na minha vida eu criei um espaço que fosse agradável. Não precisava ser grande. Quando eu estava na prefeitura, tinha aquele pavilhão junto à Secretaria do Meio Ambiente, ou depois quando fui governador, tinha o Chapéu Pensador. Ou quando tinha escritório no edifício CCI. Nós ocupamos uma praça ali. Sempre dávamos um jeito… Então o importante é o clima, o ambiente para a criação tem que ser agradável. Eu me lembro quando fomos trabalhar uma época em San Juan, Porto Rico, e eu cheguei um pouco mais tarde que o pessoal da minha equipe. E quando eu cheguei eles estavam trabalhando numa sala sem janela. Mas como no Caribe, com uma vista daquele mar lindo? Daí me falaram: “foi este escritório que nos deixaram”. Então, eu achei um bar chamado Amanda’s Bar com uma vista para o Caribe, um peitoril, uma varanda bem larga. Então a gente colocava as pranchas, um copo em cada lado do papel, e ali a gente pôde trabalhar como queria. Então, é isso. Você passa grande parte da sua vida neste espaço. Então é justo que isto te dê estímulo para criar.











[...] O arquiteto e urbanista Jaime Lerner é o responsável pela criação do projeto de ônibus biarticulado, na época em que foi prefeito de Curitiba. Lerner participou recentemente da abertura da exposição 25 Anos de Design Flexiv, quando concedeu uma entrevista ao Blog Inspire-se. Confira aqui. [...]