Confira aqui a continuação da entrevista com o arquiteto e urbanista Jaime Lerner:

- Dentro do segmento de móveis para escritório e trabalho, que tendências você vê para esta área?

Jaime Lerner: Eu acho que a fase do cubículo, do espaço fechado, está chegando ao fim. O espaço tem que ser interativo, tem que te possibilitar isso. Ainda mais porque hoje você está ligado com o mundo, então não é lógico que você não se ligue com as outras pessoas com as quais você está trabalhando. No que isso vai se refletir? Eu acho que o caminho do espaço de trabalho tem que possibilitar a gente se enturmar. Hoje, a tendência é você resolver as coisas sem ter ajuda dos outros, então é importante que você enturme.

Escritório da Redirect com Linha Webstation (Flexiv), que promove a integração

Eu faria o seguinte… teria que ter em vez de uma mesa de reuniões, um espaço para você jogar conversa fora. Nós temos uma cozinha aqui que na verdade acabou sendo o lugar onde o pessoal senta em volta da mesa e desenha. E eles têm prancheta, têm computador e tudo mais, mas…

Copa da Masisa, em Curitiba, com móveis Flexiv

Agora, fora da pergunta… Eu acho também que o pessoal mais novo se escravizou com o computador. Principalmente desenho. O que que acontece? Bom, o computador leva tempo para você fechar um desenho. Eu tenho um arquiteto aqui que ele desenha em uma hora mais rápido do que um mês, ou pelo menos duas semanas de computador. Agora, o bom é você fazer os dois caminhos. Você dá uma desenhada, repassa para o computador, refaz em cima, quer dizer… é um bom parceiro, mas não pode ser chefe. Então, essas pessoas que ficam escravizadas em renderizar as coisas… Eu me lembro uma vez, estávamos trabalhando junto com uma equipe lá de Nova York e o projeto não estava bom. Aí eu disse, mas vamos mudar. “Ah não, agora já está renderizando a maquete”… O desenho você pode refazer, agora quando está renderizando a maquete, que tem o equipamento que já vai fazendo a maquete… eu acho tudo isso meio perigoso, eu gosto mais da maquete que nasce… a maquete eletrônica é importante, mas a maquete que nasce do estudo, que você pega uma folha e “vamos ver como é que fica”, a maquete de estudo eu acho muito forte, é bom. Eu me lembro que uma vez eu percorri o museu Getty em Los Angeles, e um dos arquitetos, sócios que fez o projeto, explicou a tecnologia toda, para ter a luz ideal para você ver a exposição. Tem museus fantásticos onde a luz não é ideal e até não deve ser… porque fica tudo igualzinho. Então vamos iluminar que nem mesa de cirurgia, que nem restaurante chinês com fórmica, e luz ideal. Eu acho que a função, a diversidade dessas coisas é que criam volumes de uma maneira diferente de ver as coisas. Pelo menos a minha mente preguiçosa pensa assim. Eu pego o desenho do meu neto lá de Nova York, e ele desenha numa tacada só. A Liana também, você viu o quadro dela aqui? (mostra o quadro)
É uma coisa só, ela tem um traço só.

- Dentre tantos trabalhos que você vê mundo afora, como descreveria o estilo do designer brasileiro? O que o diferencia?

JL: Eu gosto muito do design. Pelo menos eu gosto muito do desenho, do design, vou dar um exemplo de móvel brasileiro que veio junto com a arquitetura moderna, onde se criaram os melhores designers. Se você for ver aquela exposição ali no Museu Oscar Niemeyer, a exposição do móvel brasileiro, aquilo é fantástico. Você não vê no mundo um móvel tão bom. A arquitetura, o design, você tem que ler facilmente. Eu não gosto de ler revista de design, de arquitetura, eu não consigo ler. Eles complicam tanto a leitura. Muitos grandes arquitetos do mundo eu chamo de “chewing gum architecture”; que como o computador aceita tudo, você estica, faz, e cria partes interessantes, mas não é isso… Se você pegar o desenho do Oscar Niemeyer, é um desenho puro. Você lê facilmente. Eu parto do princípio de que você gosta de uma cidade quando você entende a cidade. Então, você precisar saber ler a cidade. E tem cidades que te dão uma leitura. Então, o design, a arquitetura, o urbanismo, o design da cidade, do prédio, ou do móvel, ou do objeto, tem que ser fácil, leve. Forçar complexidade para criar o desenho diferente não acho uma boa.

Jaime Lerner profere palestra durante a abertura da exposição na Flexiv

- Recentemente você reformou o seu escritório. Na sua avaliação, como um espaço de trabalho planejado influencia a produtividade?

JL: Tudo, né? Na verdade, o espaço ele não é só para produtividade, ele é para pensar. Pra não fazer nada também. Mas pra fazer tudo isso, pra pensar, não fazer nada e fazer, ele tem que ter um espaço bom. Então, até para não fazer nada você tem que ser criativo. Eu tenho uma frase, não é minha, mas estou repetindo: falar é fácil, difícil é lazer. Coisa mais difícil é você ser assessor de lazer de uma família. Você decidir pra onde vai, onde jantar. (risos)

- Além de sua preocupação com urbanismo, o senhor tem alguns projetos voltados para a área de design, como o carro elétrico Dock Dock. Você acredita que o design pode contribuir para a melhoria das relações em sociedade, inclusive no ambiente corporativo?

JL: Claro. O bom desenho provoca uma reação positiva. De humor, de tudo. Você veja um Ipad, é um desenho bom. Qualquer coisa que tem um bom desenho, cria uma boa reação. Eu acho isso importante. A surpresa, a boa reação, a boa função, claro, a cumprir, acho importante. Mas as coisas quando têm um bom desenho, normalmente também cumpre a função. Eu, pelo menos, gosto da coisa simples, coisas que são, no design, muito complicadas, pode ser que sejam muito boas, mas eu prefiro sempre a coisa concisa. Eu faço a comparação: eu gosto muito de trabalhar sempre – quando prefeito, governador – trabalhava muito com artistas. No escritório eu gosto de ter trabalhando comigo poetas, filósofos, jornalistas… E por quê? Porque o jornalista conclui uma coisa no mesmo dia, está treinado para isso. A proposta é importante. O poeta é porque sabe condensar as coisas em poucas frases, poucas palavras. O filósofo também, porque sabe explicar. Então, não precisa ter a formação. Tem muitos que trabalham comigo que são filósofos, que são poetas. Porque esse pessoal tem uma pele mais fina. Eles sentem a sociedade antes. Então, se você pode trabalhar com gente que sente a sociedade antes, por que você vai trabalhar com quem sente depois? A ciência pós-fato não me interessa. O economista me explicar porque que não deu certo… 14 economistas, maiores dos Estados Unidos, não conseguiram antever a crise econômica. Eu gosto mais do economista que tem uma base mais filosófica. Como Eduardo Gianetti da Fonseca, que tem uma base filosófica boa. Pela mesma razão, que science fiction me incomoda um pouco. Eu gosto de ficção científica desde que tenha uma âncora, uma base verossímil antes. Se eu tiver uma âncora verossímil, daí eu posso soltar. Agora, se pega uma coisa que não tem nada verossímil, eu não tenho onde me ancorar.

Entrevista concedida à jornalista Marina Sell Brik, pela Flexiv.